Este texto é parte de uma nota técnica desenvolvida para a Universidade de São Caetano do Sul no primeiro semestre de 2024, por mim e meu amigo e parceiro, Douglas Zapata, CEA.
Estamos em meio a um grande movimento de transição do Sistema Internacional, em que transformações profundas estão ocorrendo já há alguns anos. Mudanças estas que causam uma maior instabilidade e volatilidade no mundo, que acabam por incorrer em impactos para todos, nas diferentes esferas- seja para os estados, para as empresas, ou na vida das pessoas comuns. Porém estes impactos podem se apresentar diferentemente para cada um, dependendo de posicionamentos e principalmente da atenção e das respectivas medidas tomadas. Determinadas questões podem se apresentar como um obstáculo ou como uma oportunidade, dependendo de sua abordagem.
É por isso que é fundamental para todos, pessoas físicas e jurídicas, das pequenas até as transnacionais, se atentarem ao que ocorre mundo afora. Este texto busca apresentar mais profundamente esta necessidade, que infelizmente é bastante negligenciada em nosso país.
Quando vamos no automático
A cada dia estamos nos tornando mais especializados em nossas funções, em nossas áreas de atuação, dominando mais ferramentas e processos, o que demanda atenção e tempo, um recursos cada vez mais precioso. Existem tantas informações a serem analisadas que frequentemente deixamos alguns assuntos de lado. Um destes assuntos normalmente negligenciado, porém de extrema importância é a geopolítica e as relações internacionais.
Costumeiramente acredita-se que o estudo destas disciplinas como um todo é função de instituições governamentais, militares e diplomáticas, no máximo de grandes empresas com presença global, porém a realidade é que todos deveriam ter ao menos um grau de atenção a estes assuntos, visto que é praticamente certo que em algum nível, cada desenvolvimento acabará por impactar seu dia a dia.
Infelizmente, este desleixo não é apenas de pequenas empresas, mas até de grandes, e em setores importantes, o que já acarretou em grandes prejuízos inúmeras vezes, assim como erros estratégicos que se tornaram pesados golpes sofridos por algumas destas empresas. Com a globalização trazendo cada vez mais interações entre instituições de diferentes países, desde o fornecimento de matérias primas, insumos, a produção dos produtos, a comercialização deles em outros mercados, entre outros, motivos mais que suficientes para a necessária atenção aos acontecimentos no plano internacional.
Mesmo as menores empresas atualmente possuem algum grau de exposição ao mercado global, seja porque comercializam produtos importados, ou porque insumos de seus produtos são afetados pelo mercado internacional. A lógica também se aplica a serviços, por exemplo, com as ferramentas utilizadas. Pode-se perceber portanto que é importantíssimo se atentar ao que acontece, pois pode afetar as cadeias produtivas e logísticas e causar impactos nas operações das empresas. Por outro lado, podem atingir positiva ou negativamente o acesso a outros mercados, assim como também podem forçar mudanças em algum processo, através de mudanças em alguma legislação envolvida.
É importante destacar que não apenas para mitigar riscos se deve atentar-se às Relações Internacionais, mas para a ampliação dos negócios, seja importando ou exportando produtos de/para outro lugar, observando formas e processos diferentes, ou criando uma presença física, e quanto a isso, estudar a cultura local para operar da melhor forma possível.
Não faltam exemplos dos problemas enfrentados pela desatenção aos acontecimentos do mundo. A seguir, abordaremos alguns destes e convidamos ao leitor que reflita sobre cada um destacado.
Quando empresas não prestam atenção na cultura da sociedade em que vão se instalar, frequentemente acabam cometendo equívocos até grosseiros como em casos famosos. A Mitsubishi aprendeu da pior maneira no México ao levar o modelo Pajero e ter vendas horríveis. Isso ocorreu porque não realizaram um estudo antes- a palavra tem um significado obsceno no país. Muito parecido com o ocorrido com a Kia e seu modelo Besta, que apesar de originalmente ser uma referência a “best” do inglês, tem um sentido muito pior para as línguas latinas. Imagine o que aconteceria com o McDonald's se tivesse seus produtos convencionais na Índia, onde a vaca é um animal sagrado, portanto não tem sua carne consumida, ou então nos países de maioria islâmica, onde não se come a carne de porco, como ficariam os estoques de bacon?
O período da pandemia do COVID-19 mostrou uma falta de atenção e/ou inabilidade ao lidar com a questão, por parte das empresas do setor automobilístico, que as levou a sofrer grandes golpes, destacadamente no Brasil, que é um dos principais mercados mundiais do setor. Muitas das principais montadoras no país ficaram sem estoques de semicondutores, insumos vindos majoritariamente da Ásia, acarretando em grandes dificuldades na produção e nas vendas de seus veículos, garantindo uma quase exclusividade e a liderança do mercado por certo tempo à FIAT, a única montadora que havia um estoque destes componentes, criado previamente. O forte golpe sentido pelas grandes montadoras no país as forçou a alterar suas estratégias, e levou empresas menores ao fundo do poço, como a promissora Voltz que produzia motocicletas elétricas em Manaus e está à beira da falência.
Ainda no mercado automobilístico, pudemos ver também a inação das empresas já instaladas no país, com a iminente “invasão chinesa”, que impactou fortemente o mercado com a chegada principalmente da Great Wall Motors e da BYD, acarretando em perda de participação de mercado por algumas destas empresas, sendo que o mesmo já havia ocorrido anteriormente em outros mercados.
Trazendo agora exemplos ligados a questões geopolíticas mais próximas do que as pessoas geralmente pensam do assunto, um exemplo é a crise de segurança alimentar que estamos passando no mundo, desde o início da pandemia, com a crescente escassez de alimentos especialmente em países subdesenvolvidos, e nos últimos anos também no continente europeu, que apenas se agravou com o tempo, tanto por vários problemas climáticos ocorridos em diversas regiões produtoras quanto por decisões governamentais em decorrência de desenvolvimentos de questões geopolíticas, como por exemplo a interrupção da comercialização do trigo da Rússia e da Ucrânia, ambos entre os principais produtores mundiais, e o arroz indiano igualmente. Recentemente o café e o cacau tiveram seus preços atingindo recordes devido a problemas em safras mundo afora. Embora isso abra uma janela de oportunidade para nosso agronegócio, também é sentido o impacto na hora em que vamos ao mercado, à padaria ou à feira.
Outro exemplo é a escassez do algodão e decorrente aumento de seus preços mundialmente, devido ao seu uso para a produção de pólvora, que também está escassa devido ao aumento considerável da demanda, devido ao incremento da produção de munições mundialmente por conta do desenvolvimento dos conflitos em andamento, com destaque para o conflito na Ucrânia que conta com o uso descomunal de artilharia. Algumas empresas europeias do ramo da moda estão desesperadas pois não encontram as matérias primas no mercado, enquanto isso, anteriormente na China haviam se antecipado e comprado quantidades massivas para garantir a continuação das produções.
A lógica é parecida com outra questão que é o aumento dos custos da logística marítima, decorrente das crises no Oriente Médio, com destaque para a crise no Mar Vermelho, que fez com que as seguradoras aumentassem os prêmios e até interrompessem os seguros dos transportes navais, já que o risco de navegar no local aumentou enormemente, levando as transportadoras ou a pagarem um seguro exorbitante para transitar pelo canal de Suez, ou contornarem o continente africano, demorando muitos dias a mais e consumindo uma maior quantidade de combustível, sem contar as taxas e encargos em cada porto que atracam para reabastecer, levando ao aumento do preço do produto final mundo afora.
Esse é, por si só, um fator relevantíssimo para outro exemplo que é a questão da inflação nos Estados Unidos, cujo mercado é muito dependente de produtos importados (cerca de 40% do que é consumido), e com o aumento dos custos com o frete marítimo, logicamente a pressão é para o aumento da inflação. Isso nos afeta diretamente, já que um dos principais componentes da concepção da precificação da taxa Selic é justamente a taxa de juros americana, que tem por objetivo controlar a inflação do país. Logo, se a inflação aumenta, é natural que ocorra o aumento da taxa de juros, para buscar frear a inflação, contendo a atividade econômica no país.
Este último ponto é relevante por exemplo para nosso mercado financeiro, que atua muito em torno de ambas as taxas, e a falta de compreensão da conjuntura acarreta em más decisões, que levam a prejuízos desnecessários em certas ocasiões como a deste último exemplo, onde o mercado majoritariamente seguiu apenas as falas de figuras importantes e notícias do segmento, sem levar em conta os outros acontecimentos, e seguindo a lógica econômica, acreditavam que a taxa americana seria reduzida no início de 2024, porém, sabendo dessa dinâmica no mar vermelho e dos impactos logísticos, era possível compreender que isso não aconteceria, e por conta desta análise imprecisa, muitos sofreram prejuízos desnecessários.
Quando ocorre avaliação e adaptação
Uma compreensão profunda das dinâmicas geopolíticas e culturais pode capacitar as empresas a se adaptarem e prosperarem em mercados locais e globais diversificados. Através de estratégias bem pensadas que levam em conta a conjuntura, respeitam tanto as normas regulatórias quanto às preferências culturais locais, as empresas conseguem não apenas se inserir, mas se consolidar nos mercados em que atuam. Empresas que investem em entender profundamente esses fatores muitas vezes conseguem evitar obstáculos significativos e aproveitar oportunidades de mercado de maneira mais eficaz.
As empresas podem formular ou fortalecer suas estratégias desenvolvendo as capacidades analíticas internas ou através de contratação de consultorias especializadas, que realizem o monitoramento da conjuntura internacional e que estudem profundamente não apenas os mercados, mas as sociedades em que elas atuam ou tenham pretensão de atuar. Investir em análises de risco e ter consultores especialistas pode ser um diferencial, permitindo respostas rápidas e informadas a qualquer mudança de cenário. Atualmente, temos uma grande disponibilidade de profissionais da área, e pouquíssimos postos de trabalho, demonstrando a ausência do entendimento das empresas brasileiras da relevância do assunto.
Para não estendermos demasiadamente este texto, vamos focar em apenas alguns exemplos positivos de empresas que realizaram os estudos corretamente. Começando por um já mencionado anteriormente, o McDonald's adaptou seu cardápio para atender as peculiaridades e características de cada região em que atua, como na Índia, onde introduziu itens vegetarianos e evitou carne de vaca, respeitando as sensibilidades culturais e religiosas. Essas adaptações permitiram que o McDonald's se estabelecesse com sucesso em mercados diversificados, mantendo a relevância da marca e aumentando a aceitação do consumidor. Similar ao que a Starbucks fez também, introduzindo uma variedade de chás locais e adaptou seu ambiente de loja para refletir à cultura local indiana, focando mais no espaço para socialização, assim, conseguiu criar uma base de clientes leais na Índia, ampliando sua marca em um mercado historicamente difícil para as empresas de café ocidentais.
Outro exemplo já mencionado é o da recente chegada das montadoras chinesas ao solo brasileiro, onde realizaram extensas pesquisas de mercado para compreender a mentalidade de consumo no país, posteriormente vindo se instalar aqui, não apenas diminuindo os encargos com tributação, e barateando o preço final dos produtos e consequentemente aumentando seu apelo para os consumidores, aumentando também a participação de mercado delas, ainda atendendo a um anseio do consumidor brasileiro no tocante à qualidade, já que este possui restrições aos veículos chineses, por conta das falhas ocorridas no passado, em que não conseguiram compreender a dinâmica do nosso mercado e não trouxeram veículos adaptados para a realidade brasileira, como também ocorreu com outras montadoras como as francesas Peugeot e Renault no passado.
Um caso interessante é o da Airbnb, que se beneficiou enormemente do estudo das tendências de turismo e da regulamentação local em diferentes países. A empresa adaptou seus serviços às regulamentações específicas de cada cidade, como em Paris e Nova York, onde as leis de aluguel de curto prazo são rigorosas. Essa adaptação permitiu a Airbnb continuar operando nesses mercados altamente lucrativos, mantendo uma boa relação com as autoridades locais e garantindo a conformidade legal.
Para finalizar, exemplos múltiplos podem ser apontados pela situação da guerra econômica-comercial entre EUA e China, que faz com que empresas chinesas e ocidentais estejam agindo para evitar ou contornar medidas obstaculizantes impostas pelos governos destes países, como no caso da Huawei que passou a produzir a maioria de seus insumos que eram importados nacionalmente, enquanto a Apple está transferindo suas cadeias produtivas para a Índia e a TSMC está ampliando para os EUA, como várias outras que estão se instalando no Vietnã.
Para as empresas menores aqui no Brasil, esta atenção pode se traduzir pela percepção de novas tendências, sejam oportunidades ou ameaças, tanto como novos produtos ou até segmentos, sendo base para a ponderação sobre diversificar seus fornecedores, até mantendo cadeias de suprimentos nacionais e internacionais, contornando possíveis ameaças, como por exemplo, conseguir fornecedores locais para alguns insumos já que talvez outros sejam afetados por alguma questão envolvendo a China, de modo a não interromper as operações caso isso ocorra.
Conclusão
As transformações que ocorrem no Sistema Internacional não apenas moldam o cenário econômico mundial, mas também criam desafios e oportunidades significativas que afetam diretamente as empresas em todos os setores. Como vimos, a atenção a esses movimentos pode significar a diferença entre o sucesso e o fracasso empresarial.
Exemplos de empresas como a Fiat e McDonald's, ilustram como uma abordagem informada e sensível pode resultar em vantagens competitivas substanciais. Por outro lado, a falta de atenção a esses fatores, como demonstrado pelos desafios enfrentados por empresas durante a pandemia e por outras mudanças regulatórias e culturais, pode levar a prejuízos significativos e a oportunidades perdidas.
Portanto, independente do tamanho ou setor, é imperativo para todas as empresas desenvolver uma compreensão robusta e contínua das dinâmicas internacionais. Investir em capacidades analíticas, seja internamente ou através de consultorias especializadas, é crucial para navegar neste ambiente complexo e volátil. As empresas devem estar preparadas não apenas para reagir a mudanças, mas também para antecipar e agir proativamente, garantindo assim sua sustentabilidade e crescimento no longo prazo.
Esperamos que com as reflexões trazidas por este texto possamos contribuir para o despertar do interesse pelos temas internacionais e para que as empresas passem a dar a devida atenção, pois isso pode significar o sucesso ou a ruína, especialmente no momento em que vivemos de tantos acontecimentos e mudanças